Sessão “Pipoca com Ballet” #004: Especial “O Lago dos Cisnes”

A ideia dessa sessão é apresentar para vocês espetáculos que a maioria das pessoas desconhece. Foi assim com Os Contos de Beatrix Potter, A Viúva Alegre, A Flor de Pedra e será dessa maneira com tantas outras peças que ainda temos para compartilhar com vocês.

Mas hoje abrimos uma exceção e vamos falar do ballet de repertório mais conhecido de todos os tempos: O Lago dos Cisnes. O clássico dos clássicos foi o tema de uma Mesa Redonda que aconteceu na sede do Ballet Adulto KR, em São Paulo, no dia 29 de janeiro. Nós, do Agenda de Dança, estivemos por lá para contar para vocês o que rolou.

 

O evento, organizado por Karen Ribeiro, contou com a presença de diversos convidados. Entre eles: a historiadora da dança Eliana Caminada, o historiador Vinícius Marino, a pianista Rosely Chamma, a maetrisse de ballet Liliane Benevento e a nossa parceira Juliana Mel, dona do blog Vídeos de Ballet Clássico e uma grande estudiosa do assunto.

Foram duas horas e meia de muito aprendizado! Quem liderou as discussões foi a dona Eliana, que trouxe luz à diversos pontos da história que, acho, ninguém tinha parado para pensar antes! Em seguida, Rosely trouxe um histórico da vida de Tchaikovsky. Vinícius apresentou vários aspectos do contexto político e social da época em que a peça foi lançada. Juliana também foi bastante participativa, contou curiosidades (muitas que deixaram os convidados e a plateia surpresos) e indicou vários DVDs, que é claro, vamos compartilhar com vocês!

Eis aqui algumas considerações feitas durante a Mesa Redonda que, certamente, farão muitos cair da cadeira…

A Mãe de Siegfried

Quem poderia imaginar que uma personagem, aparentemente tão insignificante, seria a grande “peça chave” de toda a história? Sim, estamos falando da rainha, a mãe de Siegfried. Porquê ela é tão importante? Pensemos: O príncipe é um jovem que acaba de completar 21 anos, está na flor da idade. Vocês acham que ele quer saber de compromisso? Tal como os jovens de hoje na mesma faixa etária, ele queria era curtir a vida! Casamento? Nem pensar! Digamos que ele era um homem à frente de seu tempo…

Mas é nesse ponto que a rainha entra em cena. Ela representa a tradição e impõem a ele que deveria escolher uma esposa para se casar e assumir o trono como rei, tal como manda a lei. Percebem que, se não fosse por ela, Siegfried jamais teria saído naquela noite para caçar? E, se assim não fosse, ele também não teria conhecido Odette e a história que conhecemos jamais se desenrolaria. Simplesmente genial!

O Grand Pas de Deux do Cisne Negro Original

Essa história, de como surgiu o pas de deux do Cisne Negro, foi contada pela nossa colaboradora nesse post. Para fazer um resumo: uma bailarina não estava satisfeita com a primeira produção do ballet e encomendou à Marius Petipa um pas de deux para o terceiro ato da peça. Tchaikovsky ficou bravo, pois a coreografia tinha música de outro compositor e ele não admitia esse tipo de inserção em suas obras. Para resolver o impasse e manter a coreografia já criada, ele compôs uma nova música, que nos dias de hoje é mais conhecida como Tchaikovsky Pas de Deux, de George Balanchine.


Tchaikovsky Pas de Deux
Com Darcey Bussell e Zoltán Solymosi
The Royal Ballet, 1993

Na versão de Petipa e Ivanov, essa música foi descartada e outro pas de deux, já existente na partitura, foi remanejado para o terceiro ato. Apesar de ser impactante, segundo dona Eliana, a primeira versão é a que traduz o momento em que Siegfried é seduzido por Odile com maior veracidade. Essa música está presente na versão coreográfica de Vladimir Bourmeister, criada em 1953 para o ballet do Teatro Stanislavsky, e que pode ser apreciada em três gravações diferentes:

Ópera de Paris, 1992
Com Marie-Claude Pietragalla e Patrick Dupond
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Teatro Alla Scala, 2004
Com Svetlana Zakharova e Roberto Bolle
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Stanislavsky Ballet, 2013
Com Natalia Somova e Sergei Polunin
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Outra montagem, que também merece, destaque é a versão coreográfica de Rudolf Nureyev para a Ópera de Viena. Além de utilizar o Grand Pas de Deux do Cisne Negro original, ele reaproveitou não só músicas descartadas da versão de Petipa como também arranjos musicais originais criados pelo próprio Tchaikovsky! Vale a pena conferir…

Há duas gravações disponíveis:

Ópera de Viena, 1966
Com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev
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Ópera de Viena, 2014
Com Olga Esina e Vladimir Shishov
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O Amigo do Príncipe

Personagem quase raro de aparecer nas montagens atuais, Benno é o amigo de Siegfried que costumava dançar o Pas de Trois no primeiro ato. Dada a sua ausência, em muitas montagens a sequência é dançada por três jovens da corte, três camponeses ou pelo próprio príncipe e duas princesas. O terceiro caso é mantido até hoje na montagem de Yuri Grigorovich para o Bolshoi, com gravações datadas de diversas épocas.

The Bolshoi Ballet, 1976
Com Maya Plisetskaya e Alexander Bogatyrev
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The Bolshoi Ballet, 1983
Com Natalya Bessmertnova e Alexander Bogatyrev
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The Bolshoi Ballet, 1989
Com Alla Mikhalchenko e Yuri Vasyuchenko
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The Bolshoi Ballet, 2011
Com Maria Alexandrova e Ruslan Svortsov
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The Bolshoi Ballet, 2015
Com Svetlana Zakharova e Denis Rodkin
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O Lago dos Cisnes X A Morte do Cisne

Uma confusão clássica que as pessoas costumam fazer, tudo porquê as duas peças tem uma temática parecida. Mas não se enganem: elas estão separadas por 28 anos! A Morte do Cisne é um solo criado por Michel Fokine em 1905, com música de Camille Saint-Saëns, extraída da obra “O Carnaval dos Animais”. A coreografia, que consagrou a bailarina Anna Pavlova, mostra o último vôo de um cisne até a sua morte. Nas palavras de dona Eliana, o coreógrafo tentou sintetizar em 4 minutos o que Tchaikovsky contou em 1877 em 4 atos.


A Morte do Cisnes
Com Maya Plisetskaya
1975

O Verdadeiro Final

É fato consumado que companhias do mundo inteiro amam e sempre remontam essa peça. Com tantas versões, surgiram inúmeros finais, e a pergunta que não quer calar é: qual é o original? Dona Eliana nos deu o veredito: o final original é o que termina com a morte dos protagonistas. A própria música, que é dramática, pede isso. E vamos combinar: como não se emocionar com esse final? Vocês podem conferir nas seguintes montagens:

The Royal Ballet, 1980
Com Natalia Makarova e Anthony Dowell
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London Festival Ballet, 1988
Com Evelyn Hart e Peter Schaufuss
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The Royal Swedish Ballet, 2002
Com Nathalie Nordquist e Anders Nordström
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American Ballet Theatre, 2005
Com Gillian Murphy e Angel Corella
Download (link em breve!)

The Royal Ballet, 2009
Com Marianela Nuñez e Thiago Soares
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Novosibirsk Ballet, 2012
Com Vera Sabantseva e Ivan Oskorbin
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The Royal Ballet, 2012
Com Zenaida Yanowsky e Nehemiah Kish
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The Royal Ballet, 2015
Com Natalia Osipova e Matthew Golding
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Quem Deve Ficar com Siegfried?

De todos os pontos comentados, esse foi o que mais deixou os convidados intrigados. De acordo com o que foi discutido a respeito dos personagens, chegou-se à conclusão de que Siegfried deveria ficar com Odile. Pois o príncipe é o típico “menino-rebelde”, o jovem que quer liberdade e não quer saber de tomar juízo. E Odile, justamente, representa esse lado rebelde na forma feminina. Ela é a mulher poderosa e sedutora que chega na festa com um “pretinho básico” e pega o homem que quiser, sem se importar com qualquer regra. Já Odette é a jovem pura e inocente, por quem o príncipe se apaixona e se casaria sem pensar duas vezes, ficando dentro da tradição. Por conta disso, Odile seria o par ideal para Siegfried… Só que ninguém contava que já houvessem criado uma montagem em que os dois se casam no final e, quando isso veio à tona, o espanto foi geral! E convenhamos, esse é um final inusitado, que dificilmente pensaríamos ver em alguma montagem… Mas ele existe! É ver para crer…

The Royal Danish Ballet, 2015
Com J’aime Crandall e Alban Lendorf
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É claro que esse é apenas um resumão do que foi a Mesa Redonda. Foram tantas coisas compartilhadas que não seria possível colocar tudo em um post só… A sensação que fica é de que, quando pensamos que sabemos muito, percebemos que somos apenas pequenos cisnes em um Lago gigantesco de informações. Gratidão pelo aprendizado e que venham outros momentos como esse!

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Juliana Mel

Se apaixonou pelo Ballet Clássico aos 14 anos e desde então se dedica a estudar sobre essa arte, com grande ênfase na História da Dança e História da Música. Em dezembro de 2009 criou o blog Vídeos de Ballet Clássico, um espaço dedicado à Memória da Dança. Atualmente é estudante de Jornalismo e bailarina clássica em formação pela metodologia RAD.
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