Ser um artista é ser um manifestante

Confira a entrevista exclusiva que o Agenda de Dança fez com Afshin Ghaffarian, o coreógrafo e bailarino que inspirou o filme “O Dançarino do Deserto”

 

Foto: Instagram @afshinghaffarian

Como a segunda maior nação do Oriente Médio, o Irã é uma das mais antigas civilizações do mundo (e para quem não sabe, ela é a antiga Pérsia). A maior parte da população é muçulmana e a dança é um tema polêmico, considerada por muitos como uma prática pecaminosa no país. Dentro de todo esse cenário, encontramos a história do coreógrafo e bailarino Afshin Ghaffarian, retratada no filme que estreou em 2015 no Brasil com o título de “O Dançarino do Deserto”. Para quem não acompanhou o longa, a narrativa do filme fala sobre o tenso clima político iraniano e o grupo clandestino de dança que Afshin e alguns amigos próximos montam para driblar a proibição de performances em público – daí o nome do filme, quando Afshin se apresenta com o grupo no meio do deserto.

Neste final de semana (01 e 02 de julho) o SESC Vila Mariana receberá Afshin para duas apresentações únicas de “O grito” e “Uma Solidão Ruidosa” e nós tivemos o prazer de entrevistar Afshin, com exclusividade, para conversar sobre carreira, política e a trajetória dele desde que recebeu asilo político na França, em 2009.

“Tenho muito cuidado em explicar a mim mesmo a minha história da vida com precisão porque há uma forte tendência no Ocidente de mostrar apenas o lado negro do Irã. As notícias sobre o Irã são muitas vezes sobre “repressão” e “censura”. São usadas como pretexto para desqualificar a entidade política do Irã como uma entidade política legítima e racional e demonizá-la sistematicamente. Em minha opinião, essas suposições estreitas impedem uma compreensão mais lógica e realista sobre não apenas as realidades artísticas no Irã, mas também políticas”.

“Em alguns meios de comunicação, a sociedade iraniana é dividida entre os bons e os bandidos, o que é totalmente errôneo, e nos mostra o Irã de uma forma muito deficiente e caricaturada.”

“Os artistas iranianos têm um duplo desafio: dentro do Irã, eles devem lutar por seus direitos e melhorar as condições de suas vidas artísticas; No Ocidente, eles têm que lutar contra a miríade de clichês sobre seu país. Eu explicaria com precisão a situação da dança e as artes contemporâneas no Irã. Por exemplo, eu diria que a dança não é proibida no Irã – no sentido de que não existe uma lei precisa que proíbe que todos dancem. Por uma série de razões históricas culturais e religiosas, a dança foi marginalizada e ignorada nos ambientes oficiais. Mas isso não significa que a dança não existe no Irã, ou que todas as formas de dança são ilegais. Na verdade, a dança existe em todo o Irã, e tem um vocabulário muito rico. Eu percebi que dançamos mais frequentemente no Irã do que fazemos na França. No Irã, as pessoas passam horas e horas dançando em encontros privados (casamentos, aniversários, encontros familiares, etc.) Na França, muitas vezes, a dança parece limitada às casas noturnas, talvez um tempo que esteja limitado às comemorações, etc.”

“Ser um artista é ser um manifestante, independentemente de onde você nasceu ou do ambiente em que vive. Quando você está satisfeito com o status quo, você não tem lugar no palco!”

Diante das dificuldades financeiras que os bailarinos têm enfrentado mais intensamente nos últimos anos, perguntamos a Afshin sobre sua opinião em relação a esse cenário. Impressionantemente, ele nos dá uma resposta que não poderia ser mais perfeita para o momento político em que nós brasileiros vivemos: “penso que o problema do nosso momento delicado em todo o mundo não é a falta de recursos, mas a falta de vontade política para distribuir os recursos de forma diferente. Se houver menos corrupção, haverá mais recursos para a cultura e para os artistas.”.

Para além da noção de “política” que temos de administração pública da saúde, educação saneamento e etc, Aristótoles define política como a ciência que tem por objetivo a felicidade humana, individual e coletivamente.[1] E Afshin tem um posicionamento interessante sobre a dança como ferramenta política, já que criou em 2010 o Grupo Reformances (http://reformances.com/en/), que, como o nome sugere, une as performances a uma intenção de reforma: “a dança é política, pois cada gesto e comportamento em nosso cotidiano podem ser políticos, não no sentido de um partido político, mas político no sentido da própria vida e da forma como organizamos a vida humana. Nesse sentido, todas as coisas são políticas, a forma como consumimos, a maneira como conversamos, a maneira como nos vestimos são políticas e podem ter direta ou indiretamente algumas significações políticas”.

“Eu me considero nada mais do que uma pequena partícula dentro de uma grande entidade que é a força das pessoas que lutam pelos seus direitos e trabalham para criar um mundo mais ético e mais justo.”

Foto: Instagram @afshinghaffarian

Vivendo exilado da sua terra natal, Afshin viveu os últimos cinco anos em um mundo novo, saído do mundo oriental para o ocidental. Quem assistiu o filme sobre sua história, certamente fica com a curiosidade de saber quais os passos seguintes de sua carreira e, apesar do final do feliz que carregamos após sairmos do cinema, na vida real, como bem sabemos, nem tudo é tão simples como gostaríamos que fosse. “É muito difícil descrever os últimos cinco anos da minha vida em poucas frases. Eu tenho que escrever um livro sobre isso. Mas posso dizer simplesmente que esse período de ausência do Irã permitiu que eu aprofundasse meus pensamentos e minha visão sobre a vida e meu relacionamento com o Irã. A distância me proporcionou uma perspectiva muito necessária para ver as coisas de forma clara e, talvez, muito mais precisa do que se eu ainda estivesse no Irã”.

“Como disse Edward Said, o exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experenciar. Um bebê sai do corpo de sua mãe e é condenado ao exílio fora do corpo materno, mas isso não significa que o recém-nascido tenha deixado sua mãe. Ele apenas vive esse relacionamento com sua mãe de uma maneira diferente. Eu consegui resolver a raiva reprimida e a frustração. O exílio foi um privilégio na medida em que me permitiu revisar minha narrativa e olhar objetivamente para o meu país em sua totalidade. O exílio permitiu que eu afiasse minha observação do mundo e meu lugar dentro dele”.

“Às vezes, temos que dançar nossos pensamentos e vice-versa!”

Afshin trabalha com o sociólogo francês Baptize Pizzinat e escreveu em 2013 o livro disponível em francês “Café des Réformances“, uma reflexão sobre dança e sociedade em geral numa tentativa de relatar as experiências de ambos. Perguntamos se ele se sente como uma inspiração para outros artistas e ele comenta: “a maneira como eu me expresso no palco deve ser vista em um contexto maior e não apenas confinado a uma certa latitude geográfica ou cultural. Não importa quem somos e onde estamos, temos que criar continuamente. Através de nossas criações, temos que inventar o mundo em que queremos viver, apesar de todas as dificuldades. Temos de procurar novas soluções de estar no mundo. Como Pina Bausch disse, “criar é a única maneira de estar no mundo”. Para existir, devemos resistir e resistir, devemos criar. Deve ser uma luta permanente para todos nós, a fim de criar um mundo melhor em conjunto.”

E ele deixa o seu recado para os bailarinos e artistas brasileiros: Atreva-se a ser e crie sua própria história!

Os detalhes sobre os espetáculos que Afshin apresentará no Brasil estão neste post que o Agenda de Dança já publicou.

“O Grito” Sábado, 01 de julho | 21h
“Uma Solidão Ruidosa” Domingo, 2 de julho | 18h
Duração: 50 minutos | Classificação: 12 anos
Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – São Paulo/SP
Ingresso: R$ 25,00 (inteira) | R$ 12,50 (meia) | R$ 7,50 (associados SESC)

[1] “Política” Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/politica/politica-definicao.htm Acesso em 29 de junho de 2017.