Novo solo de Leandro Souza discute o que é ser negro na dança contemporânea

Crédito da foto: Tetembua Dandara

Primeiro trabalho de Leandro Souza depois de ganhar o APCA por sua interpretação em Sismos e Volts, ELES FAZEM DANÇA CONTEMPORÂNEA estreia no dia 1º de agosto, às 20 horas, no Centro Cultural São Paulo. O solo do bailarino – que também assina a criação e a concepção – tem uma motivação de pesquisa que vai além do movimento e trata sobre as tensões e questões envolvidas na incursão e presença negras na dança contemporânea. A temporada tem ingressos gratuitos.

Leandro foi buscar na performance e nas artes visuais inspiração para essa criação. Em cena, num cenário que reproduz o tradicional cubo branco de galerias de arte, o bailarino busca a relação entre o seu corpo, a fala e um objeto cênico. O espetáculo se dá a partir de uma lógica da repetição, sobreposição e transformação continuas de ações, movimentos e produção de imagens, com o propósito de instaurar uma cena síntese que possa dar vazão às questões em jogo no trabalho. A voz de Leandro, repetindo as mesmas frases (em inglês e português) vai criando uma espécie de ritmo para a cena, além de uma sensação de quase hipnose junto ao público, enquanto ele executa movimentos que fogem dos sinais codificados da dança.

“Há algum tempo busco em outras linguagens além da dança desafios e respostas para as minhas inquietações. Somente a ideia de dança, entendida como realização exclusiva do movimento corporal organizado ritmicamente no tempo e espaço, não daria conta dessas questões. E ELES FAZEM DANÇA CONTEMPORÂNEA também trata dessa tentativa de não se prender a conceitos pré-estabelecidos . Eu quero falar sobre os riscos e a potência de ser artista negro e fazer dança diante de uma paisagem tomada de demandas por representatividade, questões sobre apropriação cultural e anseio pela descolonização da produção de arte e conhecimento, que nos desafia a repensar o como viver juntos considerando, não apenas nossas similaridades, mas também nossas divergências”, explica Leandro.

O bailarino explica que a ideia também é discutir como é ser um artista negro e criar/ pesquisar dança contemporânea na cidade de São Paulo. “Existem muitas expectativas e idealizações no imaginário da nossa sociedade de como corpos negros devem ou deveriam dançar. Os corpos negros só podem circular alguns lugares estabelecidos por um lógica colonial (a lógica do recinto fechado como bem fala Achille Mbembe). Sei que esse trabalho só arranha o tema e não elucida nenhuma dúvida, só levanta questões que precisam ser faladas. Ao mesmo tempo, há uma necessidade e um desejo das amplas e diversas populações negras afrodescendentes de valorizar, afirmar e ressignificar modos de fazer e pensar cultura e arte, que por séculos tem sido marginalizadas e vilanizadas. Nos dias atuais, a perseguição a esses modos de existências tem sido acirrados cada vez mais. Entretanto, a diáspora produziu uma infinidade de negritudes que nem sempre podem ser alinhavadas harmonicamente. Como artista, eu penso que a divergência e uma certa critica e desobediência a mecanismos totalizadores é fonte de riqueza e não enfraquecimento. Em termos de arte, eu me interesso por essa negritude que escapa e nos dribla quando tentamos agarrá-la, domá-la e submetê-la as nossas boas ou más intenções.”, questiona o bailarino.

Ficha técnica

Concepção, criação e dança –  Leandro Souza
Provocação – Ana Pi, Inês Terra, Renan Marcondes e Thaís de Menezes
Luz – Gabriele Souza
Som – Thiago Salas
Figurino – Leandro Souza
Fotos e Produção – Tetembua Dandara
Arte Gráfica – Pedro Campanha

Serviço

Eles fazem dança contemporânea
Com Leandro Souza
De 1º a 11 de agosto de 2019
Quinta, sexta e sábado, às 20h, domingo, às 19h
Local: Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo – SP
Ingresso: Grátis
Duração: 50 minutos.
Classificação: 16 anos
Capacidade: 35 lugares.

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