Em bate-papo Rodrigo Pederneiras fala sobre GIL e processo de criação do Grupo Corpo

Crédito da foto: José Luiz Pederneiras

A inédita GIL e Sete ou Oito Peças para um Ballet são as escolhas do Grupo Corpo para a 16º Temporada de Dança do Teatro Alfa, que tem início nesta quarta (07), em São Paulo.  O grupo, que já é tradição no festival, abre a temporada com a estreia de GIL, espetáculo criado a partir de trilha composta especialmente por Gilberto Gil.

A trilha engendrada por Gilberto Gil para o novo espetáculo do Grupo Corpo, a convite do diretor artístico Paulo Pederneiras, chegou trazendo um paradoxal desafio ao coreógrafo Rodrigo Pederneiras: ali estavam, juntos e indissociáveis, o conhecido e amado Gilberto Gil… e um compositor inteiramente novo. GIL conta com cenografia de Paulo Pederneiras, figurinos de Freusa Zechmeister e a iluminação é assinada por Paulo Pederneiras e Gabriel Pederneiras.

Grupo Corpo apresenta a inédita GIL, com música especialmente composta por Gilberto Gil. Na dobradinha, Sete ou Oito Peças para um Ballet (1994), trilha de Philip Glass/Uakti

O ponto de partida para a criação do novo balé parte de fora da música – um gesto inicial, buscado no candomblé. “Gil é filho de Xangô e usei como ponto de partida o movimento associado à presença do orixá: uma das mãos do bailarino bate no peito e a outra, nas costas”, conta o coreógrafo. “E assim o balé começou a se construir”.

A “riquíssima trilha”, nas palavras de Rodrigo, se traduziu nos duos, trios e conjuntos que se alinham e desarmam, nos uníssonos e contrapontos gestuais, peças sempre renovadas do vocabulário marcante do coreógrafo. Mas GIL não tem o clássico momento do pas-de-deux, “A trilha não traz o tradicional adágio, a parte mais lenta da música, onde frequentemente está o pas-de-deux”. Curiosamente, a única criação de Rodrigo que também não tem o clássico dueto é Sete ou Oito peças para um Ballet, o programa complementar.

No último ensaio técnico antes da estreia, a convite do Agenda de Dança, Vitor Daneu – cuidador da página Dicas de Dança – esteve presente e conversou com Rodrigo Pederneiras sobre os caminhos para chegar a criação de um novo espetáculo e sobre os novos ventos para o Grupo Corpo. Confira abaixo:

Vitor Daneu: Desde o primeiro espetáculo “Maria Maria” (1976) à “GIL” (2019) o que mudou?

Rodrigo Pederneiras: Eu acho que fora a gana e a vontade, mudou tudo. É outro mundo. Hoje a gente tem uma posição, um nome, as pessoas nos procuram, temos um espaço muito maior. No início nós não tínhamos dinheiro, não éramos ninguém, tudo que se tentava conseguir era de uma dificuldade brutal, como todo mundo começa mas foi muito legal também. Eu não sou muito fã dessa coisa de ficar dizendo “ah não, foi dureza!”. Não foi, não, sabe? Foi uma ralação? Foi uma ralação. Mas foi muito gostoso, foi muito bom. Agora a diferença é total mas eu acho legal pensar que depois desses 44 anos continuamos ainda produzindo com vigor raro e não envelhecemos pelo menos no que diz respeito à criação artística.

Vitor: Em uma entrevista (https://bit.ly/2FdiU47) você disse realizar todos os movimentos durante os ensaios para mostrar aos bailarinos, continua fazendo?

Rodrigo: Sim! Eu sempre mostro tudo, cada movimento que é feito em nossos trabalhos, eu faço antes, eu faço mesmo, no meu corpo. É claro que com uma qualidade pífia, uma qualidade horrorosa. Eu já estou todo quebrado, tenho duas cirurgias no joelho, cirurgia no ombro, já estou meio escangalhado (risos), mas dá para fazer. Eu uso uma espécie de prótese que fixa o meu joelho e eu faço tudo, cada detalhe, cada segundo das coisas que acontecem. Obviamente não quando eles começam a me ajudar, que hoje eles ajudam muito, eles dão sugestões, eles criam coisas também e vêm me mostrar, então isso facilita muito. Trabalhar com o Grupo Corpo é outro mundo, é um mundo à parte, eles são muito bons, eles vestem a camisa, eles são pessoas especiais, além de artistas especiais.

Vitor: Muito se fala à respeito da técnica do Grupo Corpo, grosso modo um jeito de mover que inicia pela bacia. Poderia comentar?

Rodrigo: Olha, isso aconteceu quando lá pelo final dos anos 80, início dos anos 90 quando se falava muito de dança brasileira, eu olhava e falava “o que é dança brasileira?”. As pessoas pegavam histórias de autores brasileiros, personagens brasileiros e tal mas o que se via era grand jeté, grand battement e eu me perguntava “o que é dança brasileira?”. A gente tinha muito forte a dança brasileira folclórica. Mas uma dança contemporânea que as pessoas olhassem e dissessem isso é brasileiro, a gente não tinha. Nós começamos a correr atrás disso, do que pode ser? Trabalhamos, desde sempre usávamos muito a técnica clássica e começamos a correr disso e com o tempo fomos agregando coisas de danças brasileiras, festas brasileiras, o jeito de mover que você acabou de falar, movimentação partindo da bacia e tudo mais e fomos tentando uma forma nossa. E é impressionante o tanto que isso é reconhecido mundialmente, Europa e Estados Unidos, a gente vê as pessoas dizerem “só o Grupo Corpo faz esse tipo de trabalho”. Você olha e fala: Brasil. E ao mesmo tempo tem uma técnica embutida ali que é uma técnica clássica mesmo. A gente não criou uma técnica, a gente criou um jeito de ser. Um jeito de mover que eu acho que é reconhecivelmente nosso.

Vitor: Quais técnicas de dança o Grupo Corpo utiliza em seus treinos?

Rodrigo: Balé, sempre. É só o balé, só o balé. Não existe aula de dança contemporânea, de moderno, nada. Só balé e o que se faz de movimentação fora disso, a criação dos espetáculos, se faz durante os ensaios.

Vitor: Em uma entrevista (https://bit.ly/2FdiU47) você disse que quando chegar a época de passar o bastão, tem vontade de passá-lo para seu filho (Gabriel Pederneiras) e talvez para Cassi Abranches…

Rodrigo: Essas são palavras minhas mesmo. Meu filho já trabalha conosco há 16 anos e no momento assina a iluminação, a Cassi fez um único trabalho (Suíte Branca/2016) mas ela dançou conosco durante 12 anos e ela é uma pessoa que queremos junto. Um dia vão ser os dois. Eu só não quero ainda parar, se bem que às vezes eu penso, já estou velho demais, mas não dá, não consigo. Queremos os dois aqui, junto conosco, lado a lado trabalhando junto e também fazendo uma criação diferente, mas isso o futuro que vai dizer…

Sobre Sete ou Oito Peças para um Ballet

Estreia: 1994
Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Philip Glass e UAKTI
Cenografia: Fernando Velloso
Figurino: Freusa Zechmeister
Iluminação: Paulo Pederneiras

Crédito da foto: José Luiz Pederneiras

A partir de oito temas surgidos da parceria inédita entre o instrumentista e compositor norte-americano Philip Glass e o grupo instrumental mineiro Uakti, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras desvencilha-se, pela primeira vez, do rigor formal que marca suas criações para construir uma obra despojada, onde a partitura de movimentos emerge como uma série de esboços, apontamentos ou estudos para uma coreografia. Inacabados, na aparência. Mas irretocáveis, pela genialidade da forma.

Como em uma pintura contemporânea, onde as correções podem ser incorporadas ao resultado final, os movimentos dos bailarinos do Grupo Corpo sesucedem em variações que vão da estética “suja” própria dos ensaios a um primoroso acabamento formal. Nesse sentido, 7 ou 8 Peças para um Ballet, que teve sua estreia em 1994, propõe mais do que vaticina. O componente obsessivo, frio e exato dos temas especialmente criados para o balé pelo ícone maior da música minimalistanorte-americana leva Pederneiras a orquestrar repetições de movimentos que beiram o automatismo, executados, na maior parte das vezes, em solo, em contraposição a movimentos orgânicos de grupo, carregados da sensual latinidade intrínseca à sonoridade única produzida pelo Uakti.

O cenário de Fernando Velloso e os figurinos de Freusa Zechmeister buscam nos primórdios da corrente minimalista da pintura americana a inspiração para as listras em verde, azul e tons de amarelo que dão identidade visual ao espetáculo, enquanto o branco reina absoluto na iluminação de Paulo Pederneiras. (texto: Angela de Almeida)

Serviço

Sete ou Oito Peças para um Ballet | GIL
Grupo Corpo
De 07 a 11 e de 14 a 18 de agosto de 2019
Quarta a sexta, às 20h30, sábado, às 20h, domingo, às 18h
Local: Teatro Alfa
Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo – SP
Ingresso: Plateia R$ 190,00 (inteira), Plateia superior R$ 75,00 (inteira)
Vendas on-line: Ingresso Rápido

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