Ícone do site Agenda de Dança

Em entrevista exclusiva Ismael Ivo fala sobre o processo de criação da nova obra do Balé da Cidade de SP

Na última quinta-feira, 15, estreou no palco do Theatro Municipal de São Paulo o mais novo espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo, que este ano comemora 50 anos de atividade. O programa que abre as comemorações do cinquentenário do Balé da Cidade teve entre suas inspirações o universo das canções de Caetano Veloso, que para Ismael Ivo, diretor da companhia, têm a possibilidade de recriar e ampliar o sentido das coisas.

A coreografia é assinada por Morena Nascimento, um dos grandes nomes da dança contemporânea da atualidade no Brasil. Ismael Ivo pensou em Morena por ser uma artista, uma coreógrafa e bailarina brasileira criativa, com forte habilidade de intuição e que trabalha a dança com paixão.

“Um Jeito de Corpo – Balé da Cidade Dança Caetano” traz para o palco a brasilidade da obra musical de Caetano em contato com o jeito apaixonado de fazer dança de Morena Nascimento – que utilizou, inclusive, de gestos de Caetano Veloso no palco como inspiração para sua coreografia.

Josie Berezin e Vitor Guedes, criadores da página “dicas de dança” (no Facebook) e parceiros do Agenda de Dança, conversaram com Ismael Ivo no último ensaio da companhia antes da estreia, e ele contou, com exclusividade, um pouco mais sobre o processo de criação de “Um Jeito de Corpo – Balé da Cidade Dança Caetano”. Confira abaixo:

Ismael Ivo discorre sobre a mais nova peça do Balé da Cidade de São Paulo a partir da seguinte questão: Houve a intenção de trazer um universo brasileiro para a dança ao escolher os artistas Caetano Veloso e Morena Nascimento para o Balé da Cidade?

Ismael – Sim, total. Eu planejei e coloquei todo esse grupo junto – Cacá Machado (direção musical), Zé Miguel Wisnik (consultoria), Vadim Nikitim (dramaturgia), entre outros – todo um time de colaboradores para confeccionar essa ideia de “Um Jeito de Corpo”. Eu, como diretor do Balé da Cidade, e em comemoração aos 50 anos do Balé, meio século de atividades com relação à dança, estava procurando um tema brasileiro. Eu sou muito apaixonado por literatura, poesia e podia ter lançado mão para estas possibilidades, como um bom Jorge Amado – adoro o fato de sermos filhos do realismo mágico, esta literatura fascinante –, podia ter sido a adaptação de uma peça de teatro, um bom Nelson Rodrigues, podia ser uma poesia de Cecília Meireles, um conto de Clarice Lispector, e de repente falei… Caetano Veloso! Também inspirado em Bob Dylan, que acabou de ganhar o último prêmio Nobel da literatura norte-americana, pensei que nós também temos um músico compositor que tem o mesmo tipo de genialidade, o Caetano Veloso.

Ele nos traz na sua música, nas suas composições, o ato de reinterpretar as mesmas velhas palavras. Criar outros significados, nos ajudar a ampliar o sentido das coisas, da vida, e criar outras possibilidades. Por exemplo, o termo “Sampa” foi ele que inventou, e hoje entrou para o nosso dicionário. Sabemos o que significa, não só por ser o apelido da cidade de São Paulo, mas através da música, da ideia que ele canta, é uma memória literária emocional. Nós já temos o Caetano impregnado na nossa memória emocional. Cada um de nós pode recordar momentos da nossa própria vida, que relacionamos a alguma música do Caetano. É algo quase social este tipo de contato com a sua poesia. Muito fascinante para mim é relacionar o Caetano a este recriar de palavras e significados dentro da nossa interpretação, mas também relacionar ao corpo. Principalmente ao corpo brasileiro.

Tenho dito que o corpo do bailarino brasileiro é o mais criativo do mundo! O brasileiro é o único que se joga em um tema de dança proposto. Talvez por termos um tipo de experiência de vida, de país, de sociedade que vai formando a nossa mentalidade… Vivemos em um país novo, sem garantias. Então, se você não tem nada a perder, provavelmente você tem algo a ganhar – então você arrisca! Quando eu vejo os bailarinos brasileiros, são os primeiros a arriscar ideias. Nós estamos com um pé no “DNA criatividade”. Talvez pela própria mistura de raça, de pessoas, de culturas, pela antropofagia, nós somos este celeiro pulsante! Neste sentido, tem frases do Caetano que dizem isso, por exemplo “Somos [quase] todos pretos”. Sim, porque tanto eu como negro, ela que vem com raízes europeias, ele com origens caboclas, talvez indígenas, todos nós temos este encontro. Não é uma mistura, é um encontro cultural. Nos tornamos um povo especial, e só assim entendemos o que é ser este brasileiro, este “DNA criatividade”, como chamo. E Caetano versa sobre esta possibilidade, “somos todos pretos” ou abaixo dos trópicos, “não existe pecado [ao sul do Equador]”. Pois temos uma outra ideia de comunicação, e do ato de recriar a arte, a vida. Por muitas circunstâncias existenciais, estamos a cada dia recriando a possibilidade de sobreviver. Por exemplo, o que faz parte do nosso repertório cotidiano: “damos um jeitinho”. Esse “jeitinho” pode ser algo pejorativo, mas em termos de arte, significa que a gente sempre se reinventa. Outro exemplo: “precisa ter jogo de cintura” revela que estamos sempre procurando desviar e recriar caminhos. E muitas vezes estamos tristes com as condições. Mas “tristeza é senhora”. Então Caetano nos ajuda a colocar a nossa vida e nossa existência nesse patamar amplo, poético. Foi, então, uma escolha muito pontuada.

E por outro lado, sabendo que a Morena veio da escola da Pina Bausch – uma artista com quem estive em contato e admiro completamente – pensei que ela, vindo deste ninho de Wuppertal, sendo ainda membro da Cia da Pina Bausch e sendo brasileira, que ela tem um nível muito alto de intuição e criatividade. E isso é outra coisa que em nosso ambiente de corpo e arte, vejo que determina a criatividade. Em alguns países, intuição já foi eliminada do dicionário. Mas intuição significa que você arrisca, e arriscar é não ter medo, porque você não tem garantias. Acho que foi Bertolt Brecht que falou que para criar, você precisa errar: errar hoje, errar amanhã, errar depois de amanhã… errar sempre. Pois sem erro, não existe arte.

Por isso, pensei: é o Caetano, é a Morena. Ela é uma artista, uma coreógrafa e bailarina com paixão. E nós, como brasileiros, somos eternamente apaixonados… afinal, como viver sem paixão? A vida fica muito chata! Sem cor, sem sabor. É esse tipo de reflexão que se vê em “Um Jeito de Corpo”, com a Morena, com o Caetano: esse caetanear, esse recriar, esse ressignificar. Eu disse aos bailarinos do Balé da Cidade: vocês dançam tantas obras lindas internacionais, mas agora quero ver o seu corpo brasileiro, com este tipo de musicalidade. Mergulha, e traz à tona o que de melhor nós temos dentro do nosso DNA Brasil, do “DNA Criatividade”!


Crédito da foto: Divulgação

Sair da versão mobile